Saltos, vaias e cultura esportiva

Dominic Ebenbichler/Reuters

O estádio olímpico de atletismo está lotado. Já estamos na fase final e vale medalha. A prova tem um favorito, mas ele foi escolhido como alvo da torcida.

O atleta se concentra para realizar seu salto. Procura se defender em sua bolha, mas não consegue. A multidão vaia. Ele corre, faz a tentativa e não consegue melhorar sua marca.

Tem mais uma chance. Busca se concentrar, mas as vaias o atrapalham. Seu humor e favoritismo caem por terra e ele não leva o ouro e fica furioso com a torcida.

Pensou no Engenhão, na torcida brasileira, no salto com vara masculino e no francês Lavillenie? Errou feio. Isso não aconteceu num país de terceiro mundo, ou, como muitos disseram, com uma torcida sem cultura esportiva. Não foi contra um francês.

A prova em questão foi o salto em altura nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976. O favorito para a prova e então recordista mundial, o americano Dwight Stones, a cada tentativa de salto era solenemente vaiado por todo Estádio Olímpico.

Como resultado, Stones ficou apenas com o bronze. Ele era uma das atrações dos Jogos, mas conseguiu apenas ter toda torcida contra. Não parece algum filme já visto?

Durante os Jogos, fiquei longe de comentários sobre situações como a que envolveu a disputa de Thiago Braz, nosso medalhista de ouro, e o francês Renaud Lavillenie, até então campeão olímpico. O francês realmente perdeu a concentração e foi derrotado antes do salto pela estratégia de Thiago, que estava atrás na prova, subiu a vara para 6,03 metros e passou na primeira tentativa, tomando a liderança da competição.

Depois disso, as declarações infelizes que ficaram com a prata da imbecilidade só perdendo para o nadador americano.

O pedido de desculpas meia boca dizendo que lá fora a torcida não se comporta assim e isso o prejudicou. Curioso que antes dele nascer os canadenses, que também têm o francês como uma de suas línguas oficiais, fizeram o mesmo com Dwight Stones, que tão logo recebeu sua medalha voltou para os EUA sem reclamar.

A diferença é que, quatro dias depois, ele saltou 2,32 metros e bateu seu próprio recorde mundial. Simples assim, sem chororô, como um campeão de verdade.

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